Os oponentes se preparam para o combate.
Os oponentes se preparam para o combate.

Foi com um movimento rápido que ele saltou e se posicionou de frente para Logan. Sentado, como se fosse um rei apreciando seu reino, ele fitava o bebê com os olhos amarelos, transbordando aquela indiferença minimamente calculada que só os gatos sabem como usar.

Nos últimos 9 anos, Mignola, o gato, tem sido meu mais fiel companheiro. Chato e carente como só ele sabe ser, não consigo imaginar a casa sem seus miados. Pesado, negro, de pêlo longo e cabeça grande, ele é um belo espécime de SRD. Uma bem-sucedida mistura de um persa com uma siamesa. Um animal único que, contrariando todas as lendas que dizem à respeito dos gatos, apegou-se, sim, ao dono e não à casa.

Enquanto baixava o jornal para tomar um outro gole de café, deparei-me com a cena descrita no começo deste texto. Mignola e Logan se olhavam. Eram como oponentes que se estudam antes de uma contenda; tentando visualizar qual será o próximo movimento do adversário. E assim ficaram por um tempo. O exercício de imaginar qual teria sido o diálogo sem sons travado por eles foi fascinante.

Mas, então, um pequeno gesto fez claro todo o drama que se desenrolava à minha frente em pleno café da manhã.

Sorrindo aquele sorriso sem dentes que derrete qualquer coração, Logan olhava para mim enquanto que, com o braço esquerdo estendido, tentava alcançar o gato. Ele tinha aquele “brilho” no olhar; aquele olhar de “ah, me dá esse!”. A mão abrindo e fechando e as perninhas, como que tentando ajudá-lo na tarefa, mexendo-se freneticamente. Tudo para alcançar o gato. E ele sorria para mim.

“Então, é o gato que você quer?”, pensei, baixando a xícara. E neste movimento, vi as pequenas falhas no pêlo do meu braço. Olhei novamente para os dedinhos que não paravam de se mexer e encarei, finalmente, o gato. “Não é bem o Mignola, o que você quer, certo?”, pensei sorrindo, lembrando dos tufinhos de pêlo que ele leva para o berço sempre que o pego no colo.

E num reflexo, meio que entendendo tudo o que se passava ao seu redor, Mignola virou-se para mim e soltou aquele miado que mais parece um lamento. Fitei-o por um tempo. Os olhos amarelos suplicando por proteção, enquanto que a mãozinha do bebê não parava quieta.

“Você sabe subir em muros, ele, não. Se vira, gatão!”. E voltei para o meu jornal, lembrando que em certas disputas, o melhor é não se meter.