Sempre ouvi dizer que não importa muito o gosto da papinha que é dada aos bebês. Que isso não vem ao caso, uma vez que o paladar deles não está totalmente desenvolvido. “É só não fazer a papa muito insossa e nem muito aguada”.

Será mesmo?

Acho que não, e explico o porquê.

Para os que não sabem, consigo me virar com relativa facilidade e jogo de cintura em uma cozinha. Não estou no nível de um grande chef (ainda), mas ninguém passa mal com a minha comida. Há dois meses — quase três, na verdade —, a pediatra de Logan, doutora Flavia Navarro, o liberou para ingerir papinhas.

“Vai ser super-divertido. Vocês vão ver só as caretas hilárias que ele vai fazer”, ela disse. “É muito engraçado quando eles começam a comer”. Sei. O meu veio com defeito, então. Desde a primeira colherada, Logan nunca fez uma careta sequer. Tampouco cuspiu, por falta de familiaridade, comida de volta. Tudo que comeu, continuou no estômago. Impressionante… Não tenho nenhuma história de “careta” pra contar. Tudo bem. Mesmo assim, um fato engraçado aconteceu.

A primeira papinha foi feita pela mãe dele. Comeu bem. Tudo. Limpou o prato. Já a segunda, foi feita por mim. Mesma boa recepção. Não ficou nada no prato. “Muito bem, bebê! Comendo até a sopa ruim do pai!”, era a piada do dia. E então fiz a terceira e a quarta sopas. “Nada a relatar, capitão. O bebê comeu tudo!”. Sensacional!

Mas um dia, eu não pude fazer a comida dele, por causa do trabalho. A mãe fez. E Logan não comeu. Cuspiu. Reclamou. Chiou e teve que comer uma papinha pronta, dessas que são vendidas nos supermercados. Decepção suprema.

Voltei a fazer e ele voltou a comer. “Que coisa? Não tem nada de diferente na sua sopa para a que eu faço…”. E não tinha mesmo. Ingredientes iguais, mesmo tempo de preparo, mesma panela… Tudo igual. Mas ainda assim, ele só comia a sopa feita por mim. E continua assim até hoje.

Acredito que a diferença está num detalhe muito simples: Eu cozinho como uma forma de prazer. Me sinto bem em uma cozinha e me sinto melhor ainda ao ver a satisfação de quem come um prato que preparei. É assim que eu cozinho para ele.

Separo os ingredientes. Tudo picado e selecionado antes. Tudo à mão, pronto para ser usado no momento certo. Mandioquinha, cebola, alho, carne, ervilha, tomate, couve, azeite, sal e água. Nada está faltando. Nada está fora do meu alcance. A comida dele é feita com a pouca eficiência profissional que aprendi; imagino-a sendo servida em um restaurante — um restaurante para bebês, é claro. Me preocupo com a cor final do prato, mesmo sabendo que para ele isso não importa. “Um pouco mais de tomate, vai deixar essa sopa com uma cara muito boa.”

E assim vou acrescentando os ingredientes um à um na panela aquecida. Tudo refogado, acrescento a água, um pouco de sal, fecho a panela e deixo cozinhar. Em 50 minutos está pronta a refeição dele. Fresca, com uma cor bonita. Suculenta (a mãe já roubou um pouco para ela mesma, inclusive). E Logan come e se farta.

E eu me vejo pensando que, talvez, o meu segredo esteja aí, neste detalhe quase imperceptível: que eu cozinho para ele, como se estivesse cozinhando para um adulto que sabe reconhecer uma comida bem feita. Pode ser essa a explicação. Ou então, a mãe perdeu mesmo a mão pra cozinha (ela que não me ouça).

É engraçada esta reação dele. Esta vontade manifestada de maneira tão clara. Há muita coisa para se especular sobre isso… Pena que não podemos continuar com esta conversa. Pelo menos, não agora. A panela está no fogo há 50 minutos…