Ainda somos um país excludente

Extraído do site Aprendiz

Projeto de inclusão de deficientes nas escolas não é o suficiente

Grasiela Cardoso
Vanessa Sayuri Nakasato

Enviadas especiais a Campos do Jordão *

Elaborar dezenas de projetos para incluir deficientes físicos nas escolas não basta. Antes de mais nada, é necessário possibilitar acessos em todo o complexo escolar. Essa foi a conclusão dos profissionais que debateram “Educar para quê?”, no encontro DNA Brasil – 50 Brasileiros Param para Pensar a Vocação do País, em Campos do Jordão, São Paulo, entre os dias 16 e 18 de setembro (2008).

Embora tenha aumentado o número de portadores de deficiência físicas nas escolas, segundo números do Ministério da Educação (MEC), a porcentagem é ínfima e o Brasil ainda é um país excludente.

O psicólogo italiano Contardo Calligaris, que estuda a exclusão social do Brasil, afirmou com exclusividade para o site Aprendiz que é impossível projetos de inclusão funcionarem quando a cidade onde o deficiente vive não o oferece acesso físico para que ele tenha uma vida normal.

No caso da educação, o resultado jamais será completo à criança especial. Ela poderá se sentir bem ao conviver com coleguinhas que a aceitam, mas se sentirá frustrada quando se deparar à realidade e começar a encontrar obstáculos à sua frente. “É como se a criança raciocinasse “eles não pensaram em mim” ao encontrar uma escadaria ou um simples degrau”, explica Calligaris.

Ele conta que nos Estados Unidos, onde morou nos últimos 10 anos, existe uma lei obrigando a instalação de rampas e elevadores em todos os lugares públicos e privados.

“Quando eu era professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, alguns alunos estrangeiros perguntavam se os americanos sofriam muitos acidentes. Eles comentavam admirados que nos Estados Unidos há muito deficiente físico. Não há mais nem menos que nos outros países. A diferença é que eles vão para as ruas, circulam, não ficam trancafiados em casa como no Brasil”, conta.

O psicólogo diz que o Brasil precisa aprender a aceitar e a conviver com portadores de necessidades especiais, principalmente nas escolas. Conforme Calligaris, é muito saudável para a criança crescer com as diferenças e trata-las de forma natural. “Quem exclui é tão excluído quanto a pessoa está sendo excluída, porque quem não convive com o outro se empobrece.”

Na opinião do educador e escritor Rubem Alves, é muita hipocrisia falar em inclusão de deficientes nas escolas.“As instituições educacionais são feitas em linhas de montagem. Muitas têm lindos projetos, belas idéias, mas são poucas as que adaptam seus ambientes. Não tem como tratar a inclusão de deficientes sem espaço físico para elas.”

O consenso de todos os debatedores do assunto é que as barreiras arquitetônicas são apenas o começo de um enorme problema. E para o processo inclusivo acontecer, é preciso que haja acessibilidade a todos.

*as jornalistas foram convidadas pelo DNA Brasil.


1 comment to Ainda somos um país excludente

  • Nilda

    Inclisão não se faz com leis… não no Brasil.
    Aqui em São Paulo há leis obrigando prédios públicos a terem rampas de acesso, mas no Fórum de Jandira, onde trabalho, só temos escadas.. e é um Fórum, o lugar onde as trangressões às leis são julgadas!! E pelo que sei, ele não é o único fórum nesta situação…
    E a inclusão de alunos nas salas de aulas da rede pública é obrigatória, mas não são realizados cursos de qualificação dos professores, diretores, orientadores pedagógicos, coordenadores, etc…Já escutei histórias de crianças deficientes auditivas em escolas em que não havia um único funcionário que conhecesse o LIBRAS.. mas a criança estava lá, participando das estatíticas oficiais de que o estado providenciou a “educação” de crianças especiais..
    Sem falar é claro, nos problemas já existentes de classes superlotadas em que os professores mal consegem dar atenção a metade dos alunos antes da aula acabar, falta de material adequado, falta de segurança.
    Sinceramente, de leis bem intencionadas este país está cheio, mas falta gente com disposição pra torná-las realidade

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