Dentes.

Há um bom tempo “dentes” e “dentista” são palavras que significam más-notícias no dia-a-dia de Logan.

Por volta de 3 anos de idade, por inexperiência, falta de conhecimento ou orientação (dos pais), o loirinho teve um ataque maciço de cáries em seus dentes de leite (que, como muitos devem saber, sucubem rapidamente a este mal). Na consulta com a primeira dentista, não conseguimos fazer o tratamento, muito em função, talvez, da sua (dela) falta de experiência com crianças da idade dele – independente da síndrome de Down.

Muito atenciosa, ela indicou uma colega odonto-pediatra que poderia conseguir fazer o tratamento em Logan.

Antes de continuar vale lembrar que, como a maior parte das crianças, o meu baixinho é avesso a médicos e dentistas e, como não poderia deixar de ser, na hora de deitar-se na cadeira da dentista, ele adquire uma força absurda.

A pediatra, na época, foi muito clara em sua posição contra o uso de qualquer tipo de sedação, exceto anestesia local (e, quando se trata de uma cardiopediatra o bom-senso manda obedecer, embora eu, em minhas convicções também acreditasse que uma sedação mais forte seria um exagero). Sendo assim, ao custo de muita conversa, paciência e força física, a dentista, sua assistente que segurava a cabeça de Logan e eu, que imobilizava seus braços e pernas, conseguimos fazer um tratamento que, sinceramente, não me recordo o nome mas que, como efeito colatreal, deixava manchas pretas nos dentes onde antes haviam cáries.

Feio? Sem dúvida. Porém, eram dentes de leite (que cairão) e o importante ali, naquele momento, era dar um basta às cáries e preservar a saúde bucal do pequeno (e seus vindouros dentes permanentes).

Infelizmente, durante um período, apesar dos avisos constantes da dentista, a manutenção (escovação), principalmente à noite, não foi a necessária e, como não poderia deixar de ser, nossas pequenas inimigas voltaram trazendo alguns reforços.

Pra nossa sorte, na época ele já estava com um plano dental feito pela mãe (o que era ótimo uma vez que eu não tinha mais condições de pagar um tratamento particular como da primeira vez). Pra nosso azar, todos os dentistas do plano ao serem consultados diziam a mesma coisa: “não tenho como atendê-lo no consultório e te aconselho a buscar um hospital odontológico”.

Claro que isso levou a  um conflito (a pediatra não recomendava uma sedação mais forte que seria usada com certeza no hospital), a uma perda de tempo (que não tínhamos para desperdiçar, diga-se) e a uma troca de administradora do plano odontológico. Felizmente Logan foi aceito como dependente no plano de Camila e pude correr atrás de um novo dentista que encarasse o desafio de enfrentar um Logan pouco colaborativo.

Depois de muita procura, encontramos uma odonto-pediatra que poderia dar conta do recado. Seu consultório mais parece um quarto de brincar, com bichos de pelúcia, brinquedos educativos e uma cadeira tão efeitada que até eu quis me tratar ali. Logan, claro, apesar da desconfiança, se encantou com as cores e alegria dis efeites do consultório e foi um pouco menos “briguento”.

Mas não menos forte.

Depois do período de “familiarização” dele com a dentista, era hora de pormos a mão na massa: tínhamos que extrair um dente que estava com a raiz exposta e outro que estava totalmente condenado, obturar um terceiro e fazer uma espécie de “tratamento de canal” no quarto. Muita coisa, sem dúvida.

Decidimos começar pelo dente com a raiz exposta, pois este parecia ser o mais urgente. Éramos eu para segurar Logan e ela para fazer o tratamento. Claro que não conseguimos segurá-lo nem para aplicar a anestesia. Ela, bem ligeira, foi pedir ajuda ao dentista do consultório ao lado, que gentilmente veio prestar e socorro e, desta forma, com dois adultos segurando o boizinho loiro, conseguimos aplicar a anestesia e extrair o dente.

Coincidência ou não, depois disso ele passou a aceitar de maneira muito mais calma que escovássemos seus dentes e até começou a brincar com o desenho do menino escovando os dentes que temos no banheiro de casa. Porém, ainda vai levar um bom tempo para eu esquecer as lágrimas que corriam pelo seu rosto e sua carinha “assustada” com tudo que precisou ser feito.

Na última sexta-feira, como a dentista continuava sem uma assistente e minha irmã acabou adoecendo na véspera da consulta, fomos eu e Camila levá-lo para dar continuiudade ao tratamento. Desta vez, iríamos cuidar da obturação.

Como não poderia deixar de ser, foi difícil, foi suado, foi duro… mas foi feito. O dente foi obturado a contento e mais um ítem foi riscado de nossa lista odontológica.

Ainda faltam, pelo menos, mais dois.

E tudo isso foi contado para que o acontecimento do último domingo faça sentido dentro de seu contexto: a queda do primeiro dente de leite.

Logan passou o último sábado brincando e cutucando com a língua um dos incisivos centrais (o dente da frente, na arcada inferior) que estava bem mole. Era uma questão de tempo para termos uma bela janelinha naquele sorrisão. E não demorou muito.

Na manhã de domingo, ao me preparar para escovar seus dentes, vi que aquele que passou o dia anterior mole estava, naquele momento, completamente solto, pronto para cair. Peguei um pedaço de algodão para proteger os dedos e ter alguma firmeza e fui conferir quão solto ele já estava. Um coisa completamente desnecessária, diga-se, pois ao primeiro toque, o dente soltou-se por completo.

Logan ficou totalmente intrigado com aquela perda de mais um dente e eu, por minha vez, parei por um instante e vi que, apesar de nossos constantes erros, a natureza encontra uma forma de se mostrar e nos dizer que ela continuará fazendo seu trabalho porque é assim que a vida deve seguir.

Os dentes de leite cairão, porque é de sua natureza cairem e serem trocados por outros mais fortes e duradouros. Isso é o ciclo natural. Cabe a mim cuidar para que aqueles dentes que precisam de tratamento hoje, sejam tratados de forma efetiva e zelar para que os próximos cresçam saudáveis. O resto, fica por conta da natureza, muito mais sábia e sensata do que qualquer um de nós.

P.S.: Registro aqui também meu agradecimento ao amigo e médico Luiz Freitas que, num momento crucial, prestou-me uma série de esclarecimentos e colocou-se à disposição para ajudar da maneira que melhor que pudesse. Já lhe disse isso em outra oportunidade mas, mais uma vez, muito obrigado, Luiz. De verdade.

–Flavio