Uma impressora que pode mudar muitas vidas

por Camila Dias e Arethusa Dias

Temos ressaltado aqui várias atitudes e batalhas para que realmente haja a inclusão de pessoas com deficiências na sociedade, tanto nas escolas quanto no mercado de trabalho. No entanto, aqueles que se dedicam a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, não raramente têm poucas condições financeiras, mas muita boa vontade.

Postamos aqui sobre a importância da leitura e da convivência com os livros e a Carol Marzagão está tentando fazer exatamente isso: levar livros em Braille para pessoas com deficiência visual. Ela é uma destas heroínas que tentam superar as barreiras do preconceito, do baixo poder aquisitivo e da quantidade mínima de auxílio para ampliar as possibilidades daqueles que nasceram sem ou perderam, no decorrer da vida, a visão.

Carol busca ajuda para obter equipamentos (como a Impressora Braille Index Basic D) e assim poder fazer a transcrição de livros. Se você, de alguma forma, puder ajudar, acreditamos que isso poderá ser um ponto de mudança na vida de muitas pessoas.

Fontes:

http://blogdacarolmarzagao.wordpress.com/2010/12/28/uma-pena-mas-continuo-na-luta/

http://blogdacarolmarzagao.wordpress.com/2011/01/16/esclarecimentos-acerca-da-vaquinha-para-a-compra-de-impressora-braille/

http://www.vakinha.com.br/Vaquinha.aspx?e=28290&pwd


Conheça o programa ‘Ser Diferente’

Artigo publicado em 6/1/2011 no site Inclusive.

Inclusão e informação num só programa

por Equipe Inclusive

Tathiana ao lado de sua mãe, Patrícia

Tathiana ao lado de sua mãe, Patrícia

Há seis meses, Tathiana Heiderich, de 26 anos, mudou-se para a Holanda com sua família. Seu pai foi transferido e ela e a mãe, Patrícia, o acompanharam. Para conhecer um pouco mais do novo país, Tathiana deu início a um projeto de entrevistas que resultou num programa de televisão que atualmente é transmitido por canais comunitários de Campinas e de São Paulo.

Tathiana, que tem Síndrome de Down, faz suas entrevistas de maneira descontraída, levando ao espectador um pouco da história de cada um de seus entrevistados.

“Eu entrevisto brasileiros na Europa, o que estão fazendo de legal. Já fiz entrevistas na Holanda, na Alemanha”, conta Tathiana, que também entrevistou holandeses em Holambra, no Brasil, para o piloto do programa.

Por trás do projeto está o Instituto MetaSocial, uma ONG que tem por objetivo promover a inclusão de forma alegre e positiva, como conta a mãe de Tathiana, Patrícia Heiderich.

“A ideia deste programa não é falar de inclusão, falar de deficiência, mas de uma forma subliminar mostrar que se é dada a oportunidade a uma pessoa com deficiência ela pode muito mais do que a gente imagina, que já é um slogan da nossa campanha antiga: ‘Quem tem Síndrome de Down pode mais do que você imagina’. Hoje o nosso slogan é ‘Ser diferente é normal’, e é isso que o programa mostra. É um programa alegre, super alto astral. A Tathiana entrevista, pergunta os micos e prova que realmente há espaço pra todos na sociedade, desde que a gente tenha uma cabeça mais igualitária e que existam mais oportunidades”, diz Patrícia.

Tathiana também está aproveitando o programa para ganhar mais experiência diante da câmera: “Eu também estou fazendo um portfólio, porque quero muito ser atriz.”

Neste link, você pode acompanhar a primeira edição do ‘Ser Diferente’. Quem quiser conferir outros programas pode procurar no YouTube digitando ‘programa Ser Diferente’.

Para ouvir esta matéria em áudio, acesse:

http://www.rnw.nl/portugues/article/inclusao-e-informacao-num-so-programa

Fonte: Radio Nederland


Teatro a todo vapor

Todo o talento de atores especiais

Notícia publicada na edição de 02/01/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 5 do caderno B – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

por André Moraes

Grupo de teatro da Associação Cultural Fazendo Arte é formado por jovens com Síndrome de Down

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Um elenco misto de pessoas com personalidades diferentes, e outras que precisam de alguns cuidados especiais. Assim é composto o grupo de teatro da Associação Cultural Fazendo Arte. Alunos portadores da Síndrome de Down se misturam com outros jovens, e trazem toda sua criatividade e espontaneidade para dentro das aulas e do palco, tornando cada dia uma experiência nova. A coluna Gente Jovem dessa semana conversou com pais desses atores especiais, pessoas do elenco e o diretor da Fazendo Arte, e descobriu o talento e a desenvoltura desses jovens, mostrando que para estar em cima do palco, é só uma questão de querer.

Não é sábado, é dia de teatro

Denilo, 19 anos, que é portador da Síndrome de Down, decidiu fazer três coisas em sua vida: academia, boxe e teatro, como conta seu pai, Miro Negrini. “O teatro já está na vida de Denilo, e se tornou muito importante. Sábado é o grande dia”, certifica Miro, se referindo aos ensaios e aulas teatrais. Os auxílios da vida artística foram muitos para o jovem, mas Miro ressalta principalmente a desenvoltura e a maior facilidade para se expressar. “Ajudou muito na expressão corporal e a desenvolver a fala”, afirma Negrini.

Seguindo sua própria vontade – assim como Denilo -, Felipe, 19 anos, começou no teatro há quase quatro anos, de acordo com sua mãe Leila Soares Silva Rocha. Houve até uma mudança radical na vida do jovem: ele emagreceu 35 quilos quando entrou no teatro. “Tudo isso para ficar mais bonito no palco”, conta Leila, com confirmação um pouco tímida do próprio Felipe, que estava sentado ao lado do repórter. Mas a felicidade de fazer teatro é imensa. Não é sábado, é dia de teatro. “Nesse dia ele não tem nenhuma preguiça de levantar da cama”, declara a mãe.

Bruna Mayumi, 22 anos, chegou à entrevista toda maquiada, usando uma coroa em sua cabeça, que faz parte de seu figurino da peça Sonhando com Alguém e Ninguém, em que representa uma rainha. “Nós chegamos atrasados, pois ela estava se arrumando”, conta seu pai Fausto de Barros, arrancando risos de todos. Para ele, Bruna estar fazendo teatro é uma grande vitória. “Para quem é pai de um jovem que necessita de cuidados especiais, é muito gratificante. A aceitação, o entrosamento… Tudo isso não tem preço”, confessa Fausto.

Camila, 28 anos, outra rainha da peça, chegou mais tímida com seu pai Gilson Carlos Alvarenga, mas logo demonstrou sua personalidade cativante e seu dom para o humor. Chegou cumprimentando a todos e sempre soltava comentários que faziam todos rir. “Ela não tem vergonha. É no teatro onde Camila se sente à vontade”, revela o pai.

Livres para brilhar

“A evolução na convivência social é muito perceptível”, segundo Miro, pai de Denilo. Ele acredita que o teatro é um importante caminho para o portador da Síndrome de Down se tornar mais independente. “O Denilo se sente mais seguro quando está acompanhado. O teatro é uma forma de ele desenvolver mais sua autonomia”, assegura.

Esse pensamento é seguido por outros pais de jovens com Síndrome de Down. Gilson, pai de Camila, acredita que os pais não devem isolar seus filhos, e sim os deixar livres para realizar as mais variadas atividades. “Eles têm capacidade, é preciso mostrar a todos o potencial que possuem”, pontua Gilson.

Etsuko Yabiku de Barros, mãe de Bruna, também defende a liberdade dos jovens para fazerem o que quiserem. “Os limites são os próprios pais que põem”, evidencia Etsuko. “Nós nascemos para brilhar!”, exclama Bruna.

Ainda existe o preconceito contra quem é diferente, mas de acordo com Miro, nesse grupo do Fazendo Arte não é assim. “Preconceito existe em todos os lugares, mas no teatro é bem menos”, revela.

Uma caixinha de surpresas

O elenco é quase todo formado por jovens com Síndrome de Down, portanto fazer aulas de teatro com eles se torna uma experiência diferenciada para quem não possui a doença. “O convívio com eles é maravilhoso. Eles são criativos, espontâneos”, confirma Sueleny Alves, 21 anos. Para a jovem, é preciso estar preparada para esperar de tudo. “Estar no palco com eles é uma caixinha de surpresas. Nunca se sabe o que pode acontecer”, conta.

Rose Rodrigues entrou no grupo quando a peça já estava em andamento, portanto sentiu algumas dificuldades no começo. “Eles empurram você para fazer as cenas. São muito generosos, ajudam muito”, confessa Rose. Ela disse que estava com medo de entrar atrasada, mas a ajuda e o empurrão que teve por parte do elenco foi algo que a motivou a continuar.

A grande sensibilidade que os portadores de Down possuem é algo sentido por todos os componentes do grupo. “Eles logo notam quando você está com algum problema”, assegura Sueleny.

Isabelle Bichinski teve uma experiência que ela lembra até hoje. Um dia a jovem foi nos ensaios com alguma dor, o que despertou o interesse de uma atriz com Down do elenco. “Quando cheguei em outro ensaio, ela veio e me disse: ‘Você está melhor? Eu rezei por você, sabia?’”, conta Isabelle.

Espontaneidade em primeiro lugar

Seguindo um preceito de deixar os alunos livres para criar, o diretor teatral Júnior Mosko, a pedido de pais de jovens portadores da Síndrome de Down, criou um projeto de inserção a essas pessoas no teatro. Esse trabalho é feito pelo diretor há quatro anos, anteriormente realizado no Sesi. Agora está sendo feito na Associação Cultural Fazendo Arte, fundada há um ano, onde esse grupo de jovens realiza suas aulas de teatro.

Mosko não conhecia a linguagem para trabalhar com esses jovens especiais, portanto recorreu a pesquisas para desenvolver o projeto. A metodologia encontrada foi por meio dos jogos teatrais, buscando trabalhar bastante a espontaneidade dos alunos. “Os jogos dramáticos são muito bons, pois possuem mais conteúdo”, especifica o diretor.

Na hora de criar uma peça, o texto fica em segundo plano, para deixar as mentes dos atores livres para estabelecer o que será mostrado no palco. “Eu apenas dou as coordenadas”, revela Mosko. Toda a sintonia e o decorrer dos acontecimentos é guiado pelos alunos. “Quem se adapta a eles sou eu”, completa o diretor. E ainda confessa: “muitas vezes o material deles é superior ao que foi estabelecido”.


O país do futuro andando pra trás… De novo

Este artigo foi publicado na revista eletrônica Inclusive em 28/12/2010 e merece toda a nossa atenção para que um retrocesso educacional não seja implantado no país.

Educação e inclusão: ano-velho ou ano-novo?

Lucio Carvalho *

A universalização do atendimento escolar, preconizada como a segunda grande diretriz do Plano Nacional de Educação (PNE) 2011-2020, enviado ao Congresso Nacional em fins de dezembro (15/12) pelo Ministro Fernando Haddad, do MEC, enfrenta desde já um importante desafio pelo menos no que se refere à educação especial. Caberá aos deputados federais eleitos, que assumem suas funções em 1º de fevereiro de 2010, conhecer, analisar e decidir pelo PNE e também sobre proposta de Decreto Legislativo que visa anular a aplicação de regulamentação proposta pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) no que diz respeito à matrícula de estudantes com deficiência nas classes comuns do ensino regular.

É o que pretende o PDC-2846/2010, de autoria do Deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG) que também é presidente da FENAPAES, Federação Nacional das APAES (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais). Barbosa alega a inconstitucionalidade da Resolução 4/10 da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CBE/CNE) e propõe anular o artigo da resolução que trata do caráter complementar e/ou suplementar do atendimento educacional especializado, justificando que alunos com deficiência possam receber exclusivamente a educação oferecida pelas escolas especiais, deixando de frequentar o espaço comum das escolas regulares, tendo em vista que o projeto de decreto visa tão somente a suspensão do efeito da norma expedida pelo CNE e publicada pelo Ministro Fernando Haddad em julho de 2010 e a obrigatoriedade dos sistemas de ensino em matricular alunos com deficiência.

A principal barreira legal que o projeto do Deputado Barbosa vai encontrar pelo caminho é a legislação federal atual, que incorporou com força de emenda constitucional a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e que assegura, em seu Art. 24, um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e prevê que todos os apoios necessários sejam dirigidos a inclusão plena dos indivíduos na sociedade. A proposta ainda impacta o desejo da Conferência Nacional de Educação (CONAE) que confirmou em abril de 2010 o sentido de universalização a partir da instituição de uma escola unificada.

Avanço nas matrículas e na qualificação
O último ano foi o segundo em que o número de alunos com deficiência matriculados em classes comuns do ensino regular superou as matrículas em escolas especiais. De acordo com o Censo Escolar 2010, o número de alunos com deficiência matriculados em todos os sistemas de ensino aumentou cerca de 10% e, segundo o INEP, isso resulta de uma maior presença social através do desenvolvimento da educação inclusiva. Por todo o país, dezenas de cursos envolvendo professores e gestores na área de educação aconteceram no sentido de qualificar a escola comum como um espaço efetivamente democrático e capaz de atender às diferenças inerentes a população de alunos, seja através dos poderes públicos municipais e estaduais como no meio universitário, atingindo novos profissionais da educação. Muitas escolas especiais, inclusive algumas APAES, redimensionaram sua forma de atendimento e passaram a atuar em regime de colaboração com a escola regular. Elas oferecem, no contraturno, o atendimento educacional especializado (AEE), que é um serviço disponibilizado aos alunos com deficiência também pelas próprias escolas e constitui a base da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, sustentada pelo MEC e recentemente regulamentada pelo CNE.

Resistências não são novidade
Não são exatamente novidade as resistências em torno da atual política de inclusão. Além das escolas especiais, que vêem seus recursos ameaçados e seus serviços com uma clientela cada vez menor, também muitas escolas particulares ainda rejeitam essa nova perspectiva de atendimento. Mesmo sendo integrantes do sistema geral de ensino e obrigadas a cumprir a legislação educacional em vigor, ainda são muito frequentes situações de constrangimento às famílias de crianças com deficiência que encontram dificuldade inclusive para matricular seus filhos e imposições contratuais desiguais, como obrigações de pagamentos adicionais e outras necessidades específicas negociadas em particular. Sob o pretexto de aumentar custos em decorrência de necessidades não habituais, cria-se um espírito de animosidade que vai encontrar solução muitas vezes judicialmente. O judiciário, por sua vez, ainda vem assimilando os valores expressos na nova ordem constitucional sobre o tema e o resultado disso são prejuízos desnecessário à população, que apenas quer ver cumpridos os seus direitos. As decisões judiciais, entretanto, cada vez mais tem favorecido aos cidadãos e também o Ministério Público tem agido como indutor de políticas públicas, orientando e fiscalizando tanto escolas públicas quanto privadas, em todas as modalidades de ensino.

No legislativo, o tema tem sido objeto de disputa e debates há pelo menos dez anos, desde que o MEC assumiu posição em prol da educação inclusiva e despertou a reação das escolas especiais, principalmente através da FENAPAES. Desde então, o debate ganhou importância na comunidade escolar, no meio acadêmico e também na cobertura jornalística, escapando do discurso especializado e ganhando relevância na sociedade de um modo geral. Em dezembro, o Senado Federal promoveu o 6º Fórum Senado Debate Brasil, com o objetivo de capacitar os agentes legislativos a observar e efetivar os princípios propostos na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência. Resta saber se o legislativo que irá tomar posse em fevereiro próximo irá acompanhar a vontade pública expressa na CONAE e no PNE e respeitar a hierarquia legal em vigor no Brasil ou se irá prevalecer o desejo de quem quer voltar atrás na implementação da educação inclusiva,
abrindo brechas para que crianças com deficiência e suas famílias voltem a submeter-se à exclusão precoce do convívio social escolar e alijando-as do direito indisponível à educação e participação plena na sociedade.

* Coordenador da revista digital Inclusive: inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br)


Exemplo de luta

Esta notícia foi publicada primeiro no site do Diário Catarinense (em 30/11/2010) e depois no G1 (em 1/12/2010)

O texto abaixo reproduz o publicado no site do DC, em minha opinião, mais completo e humano do que o publicado no G1.

Histórias de superação: A lição de Ana

Estimulada pelos pais Waldir e Gina, Ana Carolina venceu as limitações da Síndrome de Down e é uma pedagoga com pós graduação

por Amanda Miranda

Ana Carolina ao lado de sua mãe. Foto de Jessé Giotti.

Ana Carolina ao lado de sua mãe. Foto de Jessé Giotti.

A mãe bateu na porta com delicadeza, mas queria explodir de tanta felicidade. Ouviu a médica pedir que ela entrasse e deu apenas um passo à frente, como quem prepara uma surpresa.

— Oi, doutora! —, cumprimentou, sendo ultrapassada por uma figurinha de poucos centímetros de altura, franzina, de vestido florido e chuquinhas no cabelo.

Ana Carolina Fruit entrou na sala como um meteoro, andando rapidamente, com o corpo dando os primeiros sinais de equilíbrio.

— A senhora não falou que ela demoraria a andar? —, questionou Gina, a mãe mais orgulhosa do mundo.

— Pois então, aí está o resultado —, concluiu.

Gina lembra da fisionomia de espanto da médica que frustrou boa parte dos seus planos quando examinou Ana, portadora da síndrome de Down. Disse que o bebê demoraria a falar, a andar, a fazer suas coisas sozinhas. Antes, ouviu, ainda na maternidade, que a filha seria uma sucessão de fracassos. Quem inventou essa palavra jamais deveria direcioná-la para uma mãe de primeira viagem.

Com um ano e um mês, Ana deu os primeiros passos. Falou pouco tempo depois. Aos oito, entrou na primeira série. Aos 25, formou-se pedagoga. Aos 29, concluiu um curso de especialização. Tudo exatamente como nos sonhos de Gina e Waldir, campeões na arte de não desistir.

Nenhum superlativo é capaz de definir o tamanho do amor desses pais. Amam um ao outro. Amam as duas filhas, sem qualquer tipo de distinção ou medida. A mais velha, Ana, está no centro das melhores histórias que eles conseguem contar. E repetir, milhares e milhares de vezes, sempre que alguém precisa ouvi-la.

Era 12 de outubro de 1981 quando Ana chegou. O diagnóstico de síndrome de Down deixou os pais atordoados, sem saber o que fazer.

— Levou um tempo para o chão voltar. Mas tínhamos duas opções: ou nos entregávamos ou íamos a luta. Ficamos com a segunda —, conta Waldir.

A palavra que lhes daria absoluta certeza de que a criança tinha uma alteração na estrutura genética era totalmente desconhecida para o casal: cariótipo. O exame, uma espécie de fotografia dos cromossomos que confirma a síndrome, foi feito em Curitiba, onde encontraram o primeiro anjo da guarda, dos tantos que viriam a cruzar os seus caminhos.

— Se vocês não quiserem uma situação deplorável para a filha de vocês, comecem imediatamente a estimulá-la —, disse o doutor Marçalo, como em uma sentença que ficaria marcada para sempre no destino dos três.

UMA CASA MÁGICA

— Doutor Marçalo era um anjo, uma pessoa suave. Era bom estar perto dele e sentir aquela leveza toda —, lembra Waldir.

E foi ele quem deu as primeiras dicas para o tratamento de Ana Carolina, ainda um bebê. Transforme sua casa num ambiente neurotizante. Invista em luz, em cor, em som, em barulho. Pau que nasce torto não precisa morrer torto, ensinou.

A frase não ofendeu Gina. Muito pelo contrário. Serviu como estímulo, como mola para um pulo ainda mais alto. Não escondam a menina. Não deixem ela num cantinho, como se fosse quebrar. Ela precisa conviver com outras pessoas. As dicas do médico não paravam um segundo sequer de ressoar na cabeça dos pais.

— A casa era cheia de balões, de brinquedos estimulantes, de cores. Parecia um parque de diversões. Com um ano e um mês, ela andou —, recorda o pai.

O gesto impulsivo de Gina de levar a menina para mostrar para a médica era movido por uma certeza: não há batalha que não possa ser vencida. E essa era apenas a primeira vitória de um casal que, dali para frente, dificilmente teria motivos para chorar.

UM PROGRAMA “DE EXÉRCITO”

Ana Carolina empacou no meio do trajeto que cumpria todos os dias na Expoville. Não queria mais andar. Teimosa, cruzou os braços e olhou para a mãe com um quê de revolta.

— Por que a Sally pode fazer só o que ela quer e eu tenho que fazer o que vocês mandam?

Gina tomou para si a missão de explicar.

— Filha, você tem que correr assim com a mamãe porque você nasceu com um probleminha. Isso vai ser bom para o seu futuro.

Um ano antes, Gina e Waldir deram início a um intenso programa de estimulação, que previa atividades diárias, tanto de sensibilização muscular, como neurológica. O “Método Veras” era uma criação do médico carioca Raymundo Veras (baseado em um método americano), para seu filho, José Carlos Veras. (itálico do editor do blog)

Antes do nascimento de Ana, os pais adotavam uma rotina de atividade física. Ela era professora de educação física. Ele era oficial de Exército. A menina teria motivos de sobra para não ficar parada.

Hoje, Waldir circula com uma das cartilhas com números e de instruções nas mãos, como um troféu.

— Eles davam exercícios a mais. Nós não sabíamos disso e fazíamos tudo, até o fim. Era exaustivo, mas valia a pena.

MAIS VITÓRIAS PARA A FAMÍLIA

A alta que a família tanto esperava não foi a última vitória de Ana. Em 2003, ela decidiu fazer vestibular para pedagogia. Passou na primeira tentativa. Dos 131 candidatos, ficou em 62º lugar. Mais um ponto para ela.

— Eu passei o verão estudando, enquanto minha mãe e minha irmã iam a praia se divertir —, brinca.

Entrou para aprender, mas também para ensinar.

— Numa aula sobre educação inclusiva, a professora não sabia que tinha uma aluna especial na turma.

A formatura foi em 2006, com toda a pompa que a circunstância exigia. Vestido verde, longo. Maquiagem e cabelo impecáveis. Álbum de fotos com todos os parentes reunidos. Champagne na hora do brinde. Surpresa.

— Foi emocionante quando me anunciaram como a amiga da turma. Eu não esperava a homenagem.

Depois da formatura, ainda veio a especialização, que ela concluiu no ano passado.

— Todos nós temos faculdade, mas nenhum fez pós. Ela deixou todo mundo para trás —, conta a mãe.

A outra vitória veio com o primeiro emprego, na Câmara dos Vereadores. Hoje ela está no segundo, na Embraco.

Ana mora com os pais, mas é independente. Anda de ônibus sozinha. Para o espanto de muitos, escolhe as próprias roupas. Ressente-se da falta do brinco esquecido, que a deixaria mais bonita na foto. Ela é vaidosa e linda. Sorri de verdade, não para fazer pose.

Por onde Ana Carolina andou, muitos duvidaram da doença. Até mesmo alguns médicos custaram a acreditar na síndrome de Down. Os pais vibraram com cada conquista e não derramaram sequer uma lágrima de desânimo. Hoje são cheios de orgulho de uma história que deu certo porque teve amor, paciência e cuidado. A resposta de toda essa soma não poderia ser outra.


Natal Solidário

por Camila Dias

Olá pessoal!

Tudo bem?

papai-noelParece que foi ontem que eu postei as nossas aventuras das férias de julho aqui em casa com o Logan e seu irmãozinho Max (aqui, aqui , aqui e aqui).

Novembro acabou e para muita gente é hora de começar os preparativos para as festas de final de ano.

E todo ano é a mesma correria, as pessoas saem atrás de presentes para distribuir com os familiares, os amigos, colegas de trabalho e até para aqueles que somos socialmente obrigados a presentear, não é mesmo?

Nos dias de hoje, onde o consumismo lidera e guia a vida das pessoas, tempos em que as “cartas  pro Papai Noel” que nossos filhos escrevem contém celular, Ipod, notebooks e viagens à Disney, é preciso lembrar também que há muitas crianças que não têm chinelos, tênis ou cadernos. Crianças que, como as outras, sonham com o Papai Noel e, com a aproximação do final do ano, escrevem suas cartinhas, dizendo como foram comportadas e pedindo, muitas vezes, uma lembracinha ao bom velhinho. Muita gente não sabe, mas esta é uma grande oportunidade de fazer um Feliz Natal para algumas dessas crianças.

Acesse o site dos Correios e saiba como participar da campanha Papai Noel dos Correios! O serviço dos correios é de confiança e entrega o pacote que você despachar. Aproveite a oportunidade e envolva seus filhos de alguma forma neste ato, mostrando-lhes na prática o exemplo da solidariedade e do amor ao próximo.


Desfile de moda inclusiva movimenta Senado Federal

Texto publicado originalmente no site do Senado Federal em 22/11/2010

VI Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência

A moda vai invadir o Salão Negro do Congresso Nacional no dia 7 de dezembro.  Serão mais de 20 looks na passarela para mostrar que há um mercado ainda pouquíssimo explorado no Brasil: as mais de 25 milhões de pessoas com deficiência. A diferença está nos detalhes das peças: fechos com velcro, zíper em locais acessíveis e bordados em braile, entre outros. O evento, inédito em Brasília, faz parte da VI Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência, que será realizada entre os dias 7 e 9 de dezembro, no Senado Federal.
A ideia do desfile veio do Concurso de Moda Inclusiva, que acontece há dois anos em São Paulo, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Segundo a chefe do Cerimonial da Presidência do Senado Federal e coordenadora do programa Senado Inclusivo, Mônica de Araújo, estão vindo para a capital os looks ganhadores do concurso e alguns outros, que estão sendo criados especialmente para a data. “Queremos chamar a atenção da sociedade, mostrar que atitudes simples, como a produção de roupas adaptadas, podem colaborar não só com a inclusão, mas também no resgate da autoestima das pessoas com deficiência”, declara Mônica.
“No dia a dia, não conseguimos imaginar, mas vestir uma criança com paralisia cerebral pode levar quase uma hora sem a roupa adequada”, conta a estilista Leny Pereira, que acaba de lançar uma marca de moda inclusiva. Ela explica que foram cinco anos de estudos e observações até chegar aos modelos que permitem, por exemplo, que uma pessoa com deficiência consiga se vestir sozinha ou, em alguns casos, em menos tempo e com mais facilidade. Leny lembra ainda que a moda inclusiva vale até para casos em que a deficiência é temporária, como no caso de uma perna ou um braço quebrado.
Entre os looks que serão apresentados estão um casaco para deficientes visuais com tachinhas e costuras que demarcam as cores, vestido com bordados e costuras em relevos para crianças que não enxergam e calças com zíper nas laterais, adaptadas para cadeirantes.
A passarela também será adaptada para os modelos cadeirantes, com rampas de acesso e largura suficiente para que deficientes visuais possam entrar com cães-guias. A produção promete não ficar atrás de nenhum desfile do País. Segundo conta Mônica de Araújo, o Salão Negro receberá painéis de luzes LED, sonorização, passarela e tudo que uma apresentação fashion tem direito. “Queremos realmente criar o clima perfeito. Tudo está sendo preparado especialmente para esta noite”, ressalta a coordenadora.
Entre os destaques na passarela, o ex-jogador de futebol e deputado federal eleito, Romário de Souza Faria, vai desfilar com a filha Ivy. Os comentários estão sob responsabilidade da estilista Daniela Auler, coordenadora do Concurso de Moda Inclusiva, da Secretaria do Estado de São Paulo dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
O desfile será realizado na abertura do evento, no dia 7 de dezembro, no Salão Negro do Congresso, a partir das 19 horas. A entrada é gratuita, sujeita à lotação.

Destaques da programação – VI Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência
A abertura da Semana, no dia 7, será com as obras do renomado artista sergipano, Arthur Bispo do Rosário, com o tema “Obraviva – Sonho e Realidade”.
No segundo dia de atividades, haverá a abertura do VI Fórum Senado Debate Brasil com o tema “Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência nos Planos Nacional e Internacional”. Em seguida, o capitão Nelson Leoni faz palestra sobre o livro “Haiti: uma lição de vida”. O militar, já aposentado devido a um grave acidente ocorrido durante a Missão de Paz do Brasil no Haiti, conta como sobreviveu a um tiro de fuzil.
No último dia, a agenda fica por conta dos balanços e conclusões obtidas durante o VI Fórum Senado Debate Brasil com apresentação dos atletas do Comitê Paraolímpico Brasileiro e com show das bandas “Toque Especial” e “Tribo de Jah”. 
Todos os eventos têm entrada gratuita, sujeita à lotação.

Confira abaixo a programação completa:

7 de dezembro – 3ª feira
14h – Sessão Solene de Abertura da VI Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência.
Local: Plenário do Senado Federal
18h – Abertura da Exposição “Obraviva – Sonho e Realidade”, do artista plástico Arthur Bispo do Rosário.
Local: Salão Branco do Congresso Nacional
19h – Desfile de Moda Inclusiva.
Local: Salão Negro do Congresso Nacional

8 de dezembro – 4ª feira
9h às 18h – VI Fórum Senado Debate Brasil “Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência nos Planos Nacional e Internacional”.
Local: Auditório do Interlegis
Local: Salão Negro do Congresso Nacional
15h – Apresentação das peças “Cabrocha” e “Elvis Presley”, do Grupo “Eu Danço”
16h – Palestra “Haiti: uma lição de vida”, com o capitão Nelson Dias Leoni – militar ferido na Missão de Paz do Brasil no Haiti.
17h – Apresentação da Banda “Soul Washing Machine”, de Rodrigo Han
17h30 – Palestra “Universo Perfeito e Não Perfeito”, de Andrea Schwarz e Jaques Haber, consultores em Inclusão de Pessoas com Deficiência no Mercado de Trabalho.
Coquetel e autógrafos dos livros – distribuição gratuita.

9 de dezembro – 5ª feira
9h às 18h – VI Fórum Senado Debate Brasil “Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência nos Planos Nacional e Internacional”.
Local: Auditório do Interlegis
Local: Salão Negro do Congresso Nacional
15h – Apresentação dos atletas do Comitê Paraolímpico Brasileiro.
16h – Apresentação da Banda “Toque Especial”.
19h – Apresentação da Banda “Tribo de Jah”.

Informações para a imprensa
RP1 Comunicação Brasília
Amanda Viviele – amandaviviele@rp1.com.br
Maria Luiza Albuquerque – mariaalbuquerque@rp1.com.br
Regina Trindade – reginatrindade@rp1.com.br
Tel.: 61 3328 5687 / 3328 0665 / 9115 5980 / 9114 7960


Seminário de Direitos Humanos

Texto publicado originalmente no site Inclusive.

bauruA Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru, realizará de 24 a 26 de novembro, a terceira edição do Seminário de Direitos Humanos.

O encontro debaterá a formação universitária, cursos de especialização e pós-graduação em Direitos Humanos e apresentará experiências na área conduzidas em centros no Brasil e na Europa.

No dia 25, o palestrante convidado é Giuseppe Tosi, coordenador do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). No dia anterior, haverá uma reunião de estudos com os docentes do Grupo de Pesquisa: Ética, Educação e Direitos Humanos.

Os textos de apoio para o seminário são “Universidade e a Educação aos Direitos Humanos” e “O que são esses ‘tais de direitos humanos’?”, ambos de autoria de Tosi. Para ter acesso aos textos é preciso mandar um e-mail para clocar@uol.com.br

A palestra será no Anfiteatro da Central de Salas de Aulas, no campus da Unesp de Bauru.

Mais informações: http://unesp.br/observatorio_ses//int_conteudo_imgesq.php?conteudo=1202oedh@unesp.br ou (14) 3103 6172


Jovem portador de síndrome de Down escreve livro sobre sua vida e emociona leitores

Artigo publicado no site do jornal Zero Hora em 23/10/2010

Lançado no final de agosto, Nunca Deixe de Sonhar já está na segunda edição

Por Silvana de Castro

Aos 23 anos, Vinícius Ergang Streda não é igual a qualquer jovem de sua idade. É muito mais participativo. O rapaz do interior de Santo Cristo, no noroeste do Estado, já escreveu um livro, faz palestras, é mesário nas eleições, fundador de fã-clube de banda, foi coroinha e domina as redes sociais da internet. Se esse breve currículo não surpreendeu você, prepare-se: Vinícius é um rapaz com síndrome de Down.

Seu livro, elaborado em parceria com a prima, a psicopedagoga Carina Streda, é um sucesso. Lançado no final de agosto, Nunca Deixe de Sonhar já está na segunda edição. Os mil primeiros exemplares se esgotaram em menos de um mês. A obra, em processo de tradução para o espanhol, deverá ser lançada na Argentina em abril.

– Era um sonho meu. Quando eu comecei a escrever fui buscar informações, relatos da família. Hoje sou autor de livro – conta o jovem, que sonha agora em ser autor de novelas.

No livro, Vinícius relata suas vivências na família, na comunidade e nas escolas especial e regular. Suas angústias também aparecem. A percepção que o jovem tem sobre a síndrome e as suas limitações ficam claras na obra. Ele frequentou a escola especial nos primeiros anos de vida. Aos oito anos, passou a estudar junto aos alunos classificados como normais. Foi dos primeiros casos de inclusão na escola regular da região. Vinícius seguiu até o 1º ano do Ensino Médio.

– Meus colegas aprendiam mais que eu, daí eu parei. Quando o professor passava atividades no quadro, os colegas conseguiam copiar, mas eu não. Quando estava copiando uma coisa, ele apagava – conta o rapaz, que não se intimidava em pedir à direção da escola atividades diferenciadas.

Nesta época teve ainda uma paixão não correspondida no colégio, o que o desestimulou. Preferiu ir trabalhar com os pais, no mercado da família. Ali ele era repositor de mercadoria. Com o salário, comprou um notebook e passou a ter Orkut, MSN e Twitter. Aprendeu a manusear o computador em dois ou três dias, auxiliado pela prima. Antes de tornar-se um autor atarefado com sessões de autógrafos e palestras, já era familiarizado com o mundo das letras. Na adolescência, com a ajuda do pai, Ernani, criava histórias infantis e as apresentava para crianças nas creches. Mas foi com o livro que ele conseguiu aperfeiçoar a escrita e organizar as ideias.

Dos bailões aos velórios

Apesar de perceber que não tem a mesma autonomia que o irmão Victor, 19 anos, que mora sozinho, faz faculdade e namora, Vinícius é bastante independente. Viaja sozinho para Santo Ângelo, onde Carina mora, percorre o centro de Santo Cristo sem ajuda e faz as compras para seu quarto no comércio. Vai a bailes e dança até o amanhecer. Ele é participativo até em velórios, inclusive daqueles que ele pouco conhece. O importante para ele nessas ocasiões tristes é confortar a família.

– O principal motivo dele ser assim é que a gente nunca o rejeitou. Onde a gente ia sempre levava ele junto. Sentimos dificuldades, mas nunca deixamos de fazer alguma coisa por causa da síndrome de Down – conta a mãe, Claudia, 46 anos.

Além das experiências escritas por Vinícius, o livro traz relatos dos pais e do irmão e reflexões propostas por Carina.

– Quando ele nasceu, os médicos disseram aos pais que crianças assim não aprendiam. Mas o desenvolvimento intelectual vai se construindo à medida que há estímulo – diz Carina.

Clique aqui e assista ao vídeo de Vinícius e Carina falando sobre o livro Nunca Deixe de Sonhar.


Exemplo esportivo vindo de Portugal

Artigo publicado no site do jornal Publico em 28/09/2010

Maria João foi uma surpresa, Paulo foi uma confirmação

Por Tiago Pimentel

Ela nunca tinha feito desporto na vida e agora é campeã mundial. Ele sonhava ser campeão e cumpriu, com dois recordes do mundo. Ambos têm síndrome de Down e paixão pelo atletismo
Quando, há 16 anos, Paulo Henriques foi viver com o irmão José Manuel, era um rapaz franzino, frágil. Hoje, já com 29 anos, essa imagem não é mais que uma recordação. Para essa mudança pesou o desporto, e particularmente o exemplo do irmão – que praticou atletismo, correu a maratona e já fez Lisboa-Casablanca de bicicleta.

Aos poucos, Paulo começou a fazer corrida. “Foi um bocadinho difícil para ele. Fazia exercícios mais leves”, recorda José Manuel. Mas a semente estava lançada. “Nunca deixou de treinar”, conta o irmão de Paulo. Foi o início de um percurso que culminou com a conquista de duas medalhas de ouro e dois recordes do mundo no primeiro Mundial de atletismo para portadores de síndrome de Down.

“O atletismo foi uma forma de afirmação pessoal e a dedicação que ele tem ao treino é simplesmente fora do vulgar. Treina todos os dias, faça chuva ou faça sol”, diz José Manuel com orgulho.

“Fez-se um homem e um atleta”, corrobora o antigo treinador Henrique Santos, que, durante 18 anos, trabalhou com Paulo no Centro de Acção Social do Concelho de Ílhavo (CASCI). “Sente paixão pelo que faz. Treinava de manhã na instituição e de tarde em casa. Para ele não é um sacrifício. Saía de casa sozinho para treinar”, acrescenta, destacando a autonomia que o pupilo ganhou graças ao atletismo.

“É uma espécie de um filho meu, apesar de ser meu irmão. Ao princípio foi um desafio grande, mas tomei essa responsabilidade”, conta José Manuel. Paulo tem um dia-a-dia autónomo. “Levanta-se sozinho, toma o pequeno-almoço e vai para o CASCI”, diz José Manuel. Na instituição, onde existem várias actividades ocupacionais, Paulo está na parte da tecelagem. “Regressa a casa ao final da tarde e toma a iniciativa de ir treinar, sozinho”, continua o irmão, acrescentando que, se for necessário, é o próprio Paulo que vai às compras e trata do jantar. “Tem uma particularidade, cozinha muito bem. Melhor que eu, seguramente”, sorri José Manuel. E acrescenta: “Consegue ter uma vida autónoma e o atletismo ajudou muito a isso.” “Ajudou à auto-estima dele”, concorda Henrique Santos.

Superar barreiras

Para ter a vida que tem hoje, incluindo na vertente desportiva, Paulo teve de ultrapassar algumas dificuldades. “A síndrome de Down tem alguns problemas associados, como cardiopatias ou a tendência para a obesidade. Mas ele contraria isso”, sublinha José Manuel. “Ele fez um electrocardiograma antes de ir para o México e o cardiologista ficou simplesmente boquiaberto, disse: “Nunca vi um caso como este, é muito raro”", conta.

Paulo foi ao México participar no primeiro Mundial de atletismo para portadores de síndrome de Down, realizado no início deste mês em Puerto Vallarta. Os resultados dos atletas portugueses superaram as melhores expectativas. No total foram 19 medalhas: seis de ouro, nove de prata e quatro de bronze, para além do título de vice-campeã mundial por equipas para a selecção portuguesa.

Na bagagem, Paulo trouxe duas medalhas e dois recordes do mundo (nos 800m e 1500m), que surgem como uma consequência natural da dedicação ao atletismo.

A açoriana Maria João Silva, de 34 anos, protagonizou uma surpresa ao vencer os 400m marcha e 1500m marcha (com recorde mundial). “Estava longe de pensar que isto surgiria”, confessa Carla Tomás, que começou a lidar diariamente com Maria João há três anos, no Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) para Jovens com Deficiência da Santa Casa da Misericórdia da Madalena do Pico, nos Açores.

“Ela nunca tinha feito desporto na vida”, recorda. Até ao dia em que experimentou. “Gostou e continuou a trabalhar”, aponta Carla Tomás. “Tudo decorreu de forma muito rápida e inesperada”, continua a responsável. Admite que não esperava os resultados alcançados: “Não pensava nisto com as proporções que tomou. De agora em diante terei ainda mais empenho, a atenção será maior e investirei mais na Maria João e noutros atletas.”

Os “miúdos”

Na área do desporto adaptado para portadores de síndrome de Down está quase tudo por fazer. “Foi uma experiência nova. É um trabalho com apenas um ano”, explica o seleccionador nacional, José Costa Pereira, recordando os seis meses até à escolha do grupo que viajou para o México. “Foi fantástico. Depois desses seis meses iniciámos o processo de selecção final”, que culminou com dois estágios, o último deles no Estádio Nacional, no Jamor.

Por várias vezes durante a conversa José Costa Pereira deixa escapar “miúdos” em vez de atletas, quando se refere a Maria João Silva e a Paulo Henriques. “É como lhes chamamos carinhosamente, mas são todos atletas”, explica o vice-presidente da Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Intelectual.

A motivação pode ser, por vezes, um problema. “Sinto isso no trabalho no CAO. Muitos deles iniciaram actividade muito tarde e às vezes é difícil conseguir motivá-los”, confessa Carla Tomás. Nada que tire a disposição a Maria João, que a professora descreve como alguém “muito acessível, divertida e optimista. Gosta de ultrapassar obstáculos e é bastante persistente”. As palavras são acompanhadas por um sorriso que se percebe mesmo através do telefone.

Pelo contrário, José Manuel Henriques nunca teve problemas em motivar o irmão, porque, para além do exemplo familiar, houve a dedicação do próprio Paulo. O atletismo é a actividade que lhe absorve mais tempo, mas o recordista também gosta de jogos electrónicos e é fascinado por dominó.

“O Paulo demonstrou que com esforço tudo é possível. Os resultados servem para deixar a mensagem que o desporto é mais que suficiente para que os jovens possam encontrar a motivação para se sentirem bem e se sentirem úteis”, continua José Manuel. Conclui com uma confidência emocionada: “Quando o Paulo bateu o primeiro recorde do mundo [no México], fui ter com os meus vizinhos e contei-lhes. As pessoas começaram a chorar de alegria. Têm um carinho muito grande por ele.”