A Vida com Logan nasceu como um blog pra registrar o dia a dia de Logan, uma criança portadora de Síndrome de Down e seu pai.

Sempre buscando uma visão bem-humorada a respeito de tudo, o blog, antes hospedado no UOL, evoluiu para um site e passou a agregar coisas novas, como tiras em quadrinhos e assuntos relacionados à Síndrome de Down, mas não necessariamente ligados ao cotidiano de pai e filho.

Ao final de tudo, A Vida com Logan tenta ser um registro eletrônico da grande aventura chamada vida e do desafio de se criar um filho, tenha ele alguma síndrome ou não.

Aproveitem o passeio.

Abaixo segue o primeiro texto publicado no blog original com uma pequena introdução para a versão “site” que explica, entre outras coisas, porque o nome A Vida com Logan.

Em agosto de 2005, dei início a um blog no UOL com o texto que segue abaixo.
O blog mudou de endereço, de cara e de conteúdo. Mas algumas coisas se manterão as mesmas e alguns textos antigos têm prioridade sobre outros.
Este texto e o próximo são importantes como registro e servem também para situar os novos leitores em relação aos motivos que levaram a criação deste blog.
Logo mais, colocarei um texto expicando as mudanças e o que vai acontecer com os posts antigos.


Esta é “A Vida com Logan”

Eu não tenho muita certeza de que sei ao certo onde estou me metendo ao resolver fazer esse negócio de “blog”… Mas é tão fácil fazer um, não é mesmo?
Mas, antes de começarmos, algumas coisas precisam ser esclarecidas. Se você veio até aqui em busca de respostas para as suas dúvidas, uma dissertação sobre as vantagens e desvantagens de se discutir ou não a relação, uma frase que vá tornar o seu dia especial, uma lição de vida que vai ficar guardada na sua memória para todo o sempre ou uma tirada sensacional, daquelas que só os grandes humoristas conseguem; bem, lamento ter que dizer isto, mas este é o lugar errado. Tente a porta ao lado, sim? Se eu fosse tão esperto quanto pareço e tivesse as respostas pra tudo, acredite, eu já estaria milionário. E não estou…

Este blog, nada mais é do que uma busca para externar sentimentos e emoções através de palavras, uma vez que os gestos nem sempre são suficientes (ou nem sempre são os mais apropriados). É uma tentativa de criar uma sensibilidade emocional maior em mim através de uma experiência pelo mundo virtual. Uma maneira de enxergar a (minha) vida, e o que acontece ao redor dela, através dos olhos de meu filho de 8 meses, Logan. Um “livro” eletrônico que servirá como o legado de um pai para seu filho. Uma prova de que emoções podem ser expressadas de várias formas. Uma declaração de amor diária, semanal, quinzenal — que me importa a freqüência? Um registro para que um dia ele saiba o que se passava na cabeça deste pai que tentou se enxergar através de seus olhos.

Tento tratar isto como um passeio. Esforço-me para ser um passageiro. Tento me deixar levar pela percepção dele do mundo ao seu redor. Uma viagem na qual desconhecemos o destino e final — como são, aliás, as boas viagens que conduzem às grandes aventuras! E que venha a aventura, o improviso, a emoção, a alegria, a surpresa, o choro e — por que não? — o medo, pois, afinal de contas, é disso que se faz a vida! Sendo assim, que venha a vida… com Logan!

E se você acha, que vale a pena acompanhar este passeio, por favor, fique à vontade. Não dê ouvidos às bobagens que dizem sobre os portadores de Síndrome de Down. Logan é um ótimo piloto e navegador. Não vamos nos perder. Pode acreditar no que eu digo. Acomode-se em sua poltrona favorita, aperte o cinto e prepare-se para nossa viagem. Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão do teto. Não há nada com que se preocupar. Sente este solavanco? Isso mesmo… nosso vôo está começando.

Agora, se não era isto o que você estava procurando, sinto muito. Não há motivo para brigarmos. Tente dar uma olhada na porta ao lado. Pode ser que você encontre o que está procurando lá… ou não. E esta é a graça da vida.

Sentiu isso? Já saímos do chão.

No blog antigo este texto foi cortado em três partes devido às limitações impostas pelo UOL na quantidade de caracteres de cada postagem. Como não tenho mais esse problema, darei asas à minha verborragia e publicarei, pela primeira vez na internet brasileira, o texto em sua versão original.
(Depois disso, eu prometo ser menos verborrágico)


Nos capítulos anteriores…

Tá bom, tá bom. Eu sei que não houveram capítulos anteriores, mas se eu não fizer um resumo de tudo o que aconteceu há 8 meses, nada disso fará sentido. Podemos continuar? Ótimo. Prometo não demorar e não roubar muito do espaço do Logan. Sei que será um texto longo mas, acreditem, ele é necessário. Leia em partes se achar muito extenso.

No dia 29 de novembro de 2004, minha esposa entrou em trabalho de parto. Ó quanto riso! Ó quanta alegria!

Nada disso.

Sempre mantive a calma em certas situações. Correr para a maternidade era uma dessas situações. Principalmente porque (essa é para os moradores de São Paulo) moro em Santana e minha esposa queria ter nosso filho em uma casa de parto (muito boa, por sinal) no Itaim Paulista. Para quem não sabe… é uma baita viagem. Mas tudo bem. Dava tempo. Sempre dá tempo. Não importa o que digam, nunca (nunca mesmo) corra feito um desesperado para a maternidade. Vai dar tempo.

Como esta parte é a menos importante (é sério), vou resumi-la: minha esposa não agüentou as dores das contrações e desistiu do parto normal ou natural. Tudo bem. É um direito dela. Tínhamos o plano de saúde e precisávamos fazer um parto. Qual a solução? Ir para a maternidade do plano de saúde. Simples, não?

Não.

A maternidade ficava no bairro da Liberdade. Tínhamos que nos locomover do Itaim Paulista para a Liberdade às 7h30 da manhã de um dia normal de trabalho. Em São Paulo, pela Marginal do Rio Tietê e depois pelo corredor formado pelas avenidas Tiradentes e 23 de Maio. Tudo isso por causa de uma anestesia.

Ainda bem que não me desespero com facilidade.

Milagrosamente, fiz o trajeto em aproximadamente 2 horas. Uma façanha, pode perguntar para qualquer motorista. Ainda bem. Sãos e salvos, ela e o bebê (que já era Logan) deram entrada na sala de parto que, coincidência ou não, estava abarrotada de mulheres dando a luz. Não pude ver o parto. E, mais tarde, descobri que o parto foi normal. Ironia suprema; corremos para um hospital em busca de anestesia e tudo foi resolvido do jeito tradicional. Sem anestesia.

Do lado de fora, na recepção, eu aguardava com minha madrasta. Minha segunda mãe. Esperávamos por notícias da sala de parto. Por volta de 13 horas, uma enfermeira passa com um bebê enrolado direto para a UTI. As cortinas são fechadas e não se vê mais nada. Instintivamente — não sei de onde veio isso — eu sabia que era o meu filho que tinha ido para a UTI. Alguma coisa não deu certo.

“Cadê minha esposa? Quero notícias? Meu filho nasceu? O que está acontecendo? Como eles estão?”. “Calma, pai. Tá tudo em ordem. Sua esposa está ótima. Daqui há pouco a médica vem falar com o senhor. Não se preocupa, pai.” Como assim, “não se preocupa, pai”? Desde quando eu era o pai da enfermeira?

Uns vinte minutos depois, a pediatra vem falar comigo no meio da recepção do hospital — algo muito, muito apropriado. Estava tudo bem com minha esposa. Ótimo. Já o Logan…

“Bem… o Logan nasceu com Síndrome de Down, Sr. Flavio. Nós precisamos fazer alguns exames e entãonaguhrnd, d,ddm,m sjimmnsksijkal…”. Depois do Síndrome de Down, eu não estava ouvindo ou entendendo nada. Só queria que ela calasse a boca. Apenas isso. Cale a maldita boca! Mas ela não calava. A coisa ficava cada vez pior e pior e pior. Um purgatório de menos de dez minutos. Dez minutos que mudam a sua vida. Que duram uma eternidade… que te matam. É uma dor que não dá pra descrever em palavras. Apenas acreditem em mim quando digo que não desejo isso pro meu pior inimigo. Sinceramente.

Este foi um dos raros momentos em que perdi completamente o controle sobre meu corpo. Talvez o único em que as emoções me traíram. Pelo menos serviu para as pessoas verem que, sim, eu possuo fossas lacrimais e elas funcionam perfeitamente.

É claro que diante do meu estado deplorável, a médica achou melhor me levarem para o pronto socorro para que eu fosse “medicado”. Por medicado eu entendi dopado… felizmente para todos nós, ninguém foi estúpido o bastante para tentar me levar à emergência. Encarei tudo de cara limpa. Isso é bom porque mantém as lembranças sempre frescas na sua cabeça.

O tempo passa. No final do dia, finalmente minha esposa vai para o apartamento. Apenas ela. Logan ficou em observação a noite toda… Só me restou pedir à minha madrasta que ficasse com ela enquanto que eu ia pra casa cuidar da parte dolorosa de tudo: avisar à família e aos amigos mais próximos que nada tinha ocorrido do jeito que pensávamos que ia ocorrer. A pior noite de toda a minha vida. A noite ruim que vai servir de comparação para todas as outras e, com certeza, nenhuma chegará aos pés dessa.

Abro aqui um parêntese para expiar minha própria culpa e vergonha. À noite (finalzinho da tarde), eu e minha madrasta tivemos a oportunidade de ir à UTI ver meu bebê. Ela estava doida de alegria para ver o neto. E foi. Eu, não. Sentei-me no sofá da recepção e ali fiquei me perguntando se já não havia tido dor suficiente para mais de uma vida. Acredito que nunca vou me perdoar por ter feito isso com ele. Eu não o vi em seu primeiro dia fora do útero. Ele teve a chance de ter contato primeiro com o pai e eu lhe neguei isso…

Fecha o parêntese.

No dia seguinte, voltei ao hospital. Minha cunhada e minha madrasta estavam na UTI com Logan. Minha esposa estava no quarto. Eu ainda evitava o contato com ele.

Elas saíram da UTI e, pouco depois veio uma enfermeira — Isabel, uma mulher formidável e muito, muito atenciosa —, buscar minha esposa. Era hora da “prova de fogo”.

“A criança Down, geralmente têm dificuldade para mamar. Você vai lá na UTI tentar dar o peito pra ele… se ele mamar, ótimo, já pode vir para o quarto; do contrário, vamos ter que entrar com outra nutrição.”. Quase nada de pressão em cima da mamãe. Primeiro filho, primeira mamada… fica melhor à cada momento.

Mamãe na UTI. Logan no braço de mamãe. Família em pânico. Vai começar. Boca aberta. Cabeça na posição certa. Acoplagem meio desastrada. Falta um pouco de treino. Opa! Calma. E então, Logan vira uma bomba de sucção e…

Como é que é?? “Bomba de sucção”? Como assim?

“Bem como ele está mamando melhor que as outras crianças, não tem porque mantê-lo na UTI. Vamos só esperar o resultado dos exames e ver se ele não tem nenhuma doença relacionada à síndrome, alguma cardiopatia, ou problema respiratório ou ainda algum problema nos intestinos”, me comunicou Isabel com uma dose de alegria, como se ela mesma fosse um membro da família. E de certa forma foi.

E então eu fiquei olhando para aquele baixinho… E vi que ele não ia se deixar entregar tão fácil. “Que papo é esse de que não sei mamar”, ele deve ter pensado em algum nível de consciência que desconhecemos. “Me dá aqui esse peito que eu te mostro o que é mamar!”. E mamou.

E mama. E come. E sorri. E rola. E grita. E chora. E dorme a noite toda. E é feliz.

Nenhum dos exames acusou nada. Tirando a Síndrome em si, não havia nada. Nenhum motivo para continuar a internação. Após dois dias, meu bebê estava em casa. E minha vida nunca mais foi a mesma.

Essa foi a parte dura da vida com Logan. Aquela trepidação incômoda que a gente sente quando o avião começa a levantar vôo. Nada que vá nos matar. Mas ainda assim, assustador. Mas não se preocupem. Daqui pra frente o passeio é mais calmo e as histórias serão mais curtas. Prometo nunca mais escrever tantas linhas como agora. Não abusarei mais da paciência de vocês.

Senhores passageiros, boa noite.